Notícias

DEFENSORIA EM AÇÃO


Reconhecimento de paternidade marca encerramento da 3ª edição do Defensorias do Araguaia em aldeia indígena de Goiás

Realizada pela primeira vez em uma aldeia fora das margens do Rio Araguaia, a etapa final do projeto levou atendimento jurídico e serviços essenciais à comunidade Tapuia

Por Barbara Argôlo
06 de de 2026 - 17:32
Fotos: Barbara Argôlo Reconhecimento de paternidade marca encerramento da 3ª edição do Defensorias do Araguaia em aldeia indígena de Goiás


A Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPEMT), em parceria com a Defensoria Pública dos Estados de Goiás (DPEGO) e Tocantins (DPETO), a Defensoria Pública da União (DPU) e diversas instituições parceiras, realizou, nesta segunda-feira (6), os atendimentos da terceira etapa da 3ª edição do projeto Defensorias do Araguaia, realizada na Aldeia Carretão, localizada no município de Nova América (GO), a aproximadamente 250 quilômetros da capital Goiânia.   

Pela primeira vez, o projeto é realizado dentro de uma aldeia indígena que não é banhada pelo rio Araguaia. Nesta etapa, por conta da alta demanda levantada, os atendimentos contemplaram indígenas da etnia Tapuia, da aldeia Carretão, levando serviços voltados ao acesso à justiça, cidadania e garantia de direitos. 

Um dos momentos mais marcantes foi o reconhecimento de paternidade de Eliane Cíntia de Souza Vieira, de 34 anos, filha de Balbino Vieira dos Santos Tapuia, de 54 anos. Com o procedimento realizado durante a ação, Eliane passou a ter oficialmente o nome do pai em sua certidão de nascimento e poderá, posteriormente, solicitar a atualização do registro de seus filhos, fortalecendo o vínculo familiar e preservando a identidade indígena da família.   

Emocionado, Balbino afirmou que aguardava esse momento há muitos anos. "Hoje, graças a Deus, deu tudo certo para eu colocar a minha assinatura no registro dela. Estou feliz demais. Era um desejo muito grande".   

Para Eliane, a inclusão do nome do pai representa mais do que uma alteração documental. "É muito bom ter o nome do pai na certidão. Agora também quero colocar o sobrenome Tapuia e buscar esse mesmo direito para os meus filhos".   

Além dos reconhecimentos de paternidade, a força-tarefa também recebe demandas relacionadas à retificação de registros civis, inclusão da etnia e de sobrenomes indígenas em documentos, além de outras questões individuais e coletivas envolvendo acesso a direitos.   

O defensor público José Edir Martins, da Defensoria Pública de Mato Grosso, destacou que o projeto já demonstra maturidade institucional ao chegar à terceira edição e defendeu sua continuidade permanente. "Estamos na terceira edição, e isso significa continuidade. Precisamos transformar essa iniciativa em uma política institucional permanente. Ainda que os atendimentos representem apenas parte das inúmeras demandas existentes, eles garantem efetividade à cidadania de uma população extremamente vulnerável, muitas vezes esquecida".   

A coordenadora do Defensorias do Araguaia em Tocantins, defensora pública Letícia Amorim, ressaltou que a terceira edição representa um novo momento da iniciativa ao ampliar o público atendido. Segundo ela, inicialmente o projeto era voltado às comunidades indígenas que vivem às margens do Rio Araguaia, mas a experiência das primeiras edições mostrou a necessidade de expandir a atuação para outros povos assistidos pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Araguaia.   

"A terceira edição contempla também o povo Tapuia, reforçando a importância da atuação integrada entre as Defensorias Públicas estaduais e a Defensoria Pública da União. Também identificamos uma grande demanda relacionada à saúde indígena, o que fortaleceu a necessidade de uma atuação coletiva e articulada". 

Representando a Defensoria Pública de Goiás, o defensor público Breno de Araújo Assis destacou que o projeto concretiza o dever constitucional da Defensoria Pública de garantir assistência jurídica às populações vulnerabilizadas. Segundo ele, a atuação conjunta supera barreiras geográficas e administrativas impostas pelas divisas estaduais. 

"Embora existam fronteiras político-administrativas, os povos indígenas ocupam seus territórios de forma contínua. O projeto permite uma resposta integrada às demandas individuais e coletivas, aproximando o Estado brasileiro dessas comunidades."   

 O cacique da Aldeia Carretão, Dorvalino Augusto da Silva Tapuia, agradeceu a presença das instituições e destacou a importância de os atendimentos ocorrerem dentro da própria comunidade. "Para nós é muito importante receber vocês aqui. Temos dificuldades de deslocamento e ver todas essas instituições vindo até o nosso território é motivo de honra. É um sonho ver nosso povo tendo seus documentos regularizados e nosso nome Tapuia reconhecido".  

O prefeito de Nova América, Cleber Júnior de Souza, afirmou que o município apoia integralmente iniciativas voltadas à promoção da cidadania. "Quando recebemos o convite, dissemos imediatamente sim. Não estamos aqui apenas para cumprir agenda, mas porque acreditamos nesse trabalho. A prefeitura continuará apoiando ações que garantam direitos e aproximem os serviços públicos da população indígena".   

Nesta etapa, além da Defensoria Pública dos Estados de Mato Grosso, Goiás, Tocantins e da Defensoria Pública da União, participam órgãos parceiros como Receita Federal, INSS, Polícia Civil e equipes da Prefeitura de Nova América, fortalecendo a oferta de serviços e ampliando o acesso da população indígena às políticas públicas.